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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Ruralidades em "Geografia Sentimental"

Ler as obras de Aquilino Ribeiro é um aprofundar dos usos e costumes das Beiras, durante a primeira metade do século XX. Em “Geografia sentimental” o autor volta mais uma vez ao local do crime, passe a figura de linguagem, às suas sentidas ruralidades.

No trecho que a seguir transcrevo fala de Ariz, povoação de Moimenta da Beira.

“… Mas chegou o nordeste com os primeiros borrifos de Inverno, quando o serrano aparece às esquinas das ruas engoiado na capucha só com os olhos a luzir, os castanheiros começam a botar, e os serões abrem as portas. Em Ariz como em todos os lugares da comarca serrana os serões são nos estábulos. A um canto, se a loja é vasta, ruminam as vacas, a outro, acocoradas no palhuço, seroam as mulheres. Fiam, fazem meia, dobam, e em geral amanham o linho de seus linhares. Uma candeia, presa da trave, para cujo combustível todas concorrem semanalmente com um vintém, ilumina o recinto. Cheira à pedra lascada? Qual, multipliquem-se no sentido da qualidade estas coisas por dez e ter-se-ão os serões do Paço da Ribeira com os açafates de D. Catarina acocoradas nas esteiras a espiolharem-se umas às outras e os D. Manuéis de Portugal a botar a sua chalaça ou a glosar o seu mote. Tudo é relativo no tempo. Ariz do século XX está para a Lisboa antiga, como os seus serões estão para os serões realengos de antanho.

Ora sempre um dos serões, aquele que era mais concorrido dos rapazes e mais próprio ao baile, se fazia em casa do Roque, infalivelmente lastrado de palha limpa e com um franco e largo acesso.

Vai o César Valadas, a título de que semelhantes hábitos representavam uma costumeira bárbara, atentatória da moral e dos bons costumes, mandou ao regedor que intimasse os antigos donos das lojas a não dar serão em casa sua. Os Roques não se conformaram e deitaram-se à vila, acompanhados dos primeiros cabritos que haviam aparecido na manada para o senhor administrador. Argumentos deste foram sempre de peso. O Elias foi avisado de que não devia proceder assim de salto à extirpação de costumes que estavam enraizados no ânimo das gentes e antes procedesse com brandura e tolerância. Iam ser instaladas Casas do Povo em todas as aldeias de Portugal e então, sim, seria azado proibir semelhantes serões, que tinha a incomodá-los certa ausência de higiene, quanto aos locais, e o perigo que podia correr, não a virtude, que estava à prova de aço da moral, mas a ordem pública.

O Valadas é que se não deu de todo por convicto e refilou. Nos serões cometia-se toda a casta de poucas-vergonhas, desenterravam-se os mortos e enterravam-se os vivos, não falando nos amorios e indecorosa promiscuidade. Eram uma sobrevivência aviltante do tempo do rei que rabiou, imprópria de terra civilizada.

- E Jesus não veio ao mundo num estábulo? – observou-lhe o senhor administrador, que era da Católica.”

 

  (antonio)