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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - CLXXXIX(antes era assim)

 

Os mais velhos testemunharam a miséria que havia no passado, e aqui podemos dizer como ponto de referência a data do 25 de Abril de 1974.

Portugal era um país eminentemente rural e a maior parte das pessoas viviam da agricultura. Mesmo nas terras mais pobres como aquela onde nasci, até as mais minúsculas leiras eram trabalhadas. Podemos dizer que havia os donos das terras, os caseiros e alguns cabaneiros. Não havia reformas no mundo rural, as pessoas quando chegavam perto do fim da vida, vegetavam.

Na terra onde nasci havia pobres de pedir e outros doutras terras que vinham em determinado dia “dar a volta”. O dinheiro vivo escasseava e então normalmente dava-se uma covilhete avantajado de milho, centeio, feijão menos.

Na festa anual lá da terra, que se celebra no dia de Pentecostes (cinquenta dias depois da Páscoa), Senhor dos Enfermos, era uma chusma de pedintes que se posicionavam na principal entrada para o arraial. Se recuarmos mais de cem anos, veja-se o que dizia o jornal Primeiro de Janeiro, em 1903, referindo-se a esta festividade:

“Levando à cabeça o farnel ou a trouxa com os chinelos, famílias inteiras, pais e avós, com a andaina domingueira, as velhotas troteando, a transpirar, e a filharada em legiões de pequenos demonicos gárrulos, todos ufanos por transportarem, a tiracolo, a colossal borracha contendo no seu rotundo bojo de pele de cabra o vinho bastante para essas borracheiras. Já então se via, pela borda dos caminhos, uma legião de mendigos e de atrojados, pormenor essencial desta romaria”. E mais adiante “ e depois a chuva de mendigos, de aleijados”

Aquilino Ribeiro que retrata o meio rural da Beira Alta, no seu livro “Terras do Demo” (1917), ao falar da festa “Senhora da Lapa”, Sernancelhe:

“Dali até ao povo, em linha da rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigos, os surdo-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entravadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das mãos ou as pernas engatinhadas, algumas secas como cabos de faca, e deitavam a lamúria:

- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!

Outros, no meio de mondongos, punham ao léu as chagas cancerosas, mais roxas que as do santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:

- Ó alminhas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!

Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:

- Pela luz dos vossos olhos dai uma esmolinha ao ceguinho!

E os entravados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo menineiro….”

 

  Ant. Gonç. (antonio)