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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - CLXXV(Pelo Senhor dos Enfermos II)

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Trindade Coelho, escritor transmontano, disse: amar as nossas tradições é amar os usos e costumes da nossa terra, é amar o carácter da nossa terra, isto é, o seu modo de pensar, de sentir e de proceder”.

Embalado por este autor vou aqui referir aspectos da festividade supra citada. É hoje sabido que a religiosidade no passado era mais vincada em todos os aspectos da vida também no meio rural. A cruz de Cristo era talhada na pedra tanto em casas, praças, palácios e até nos canastros. As eras lavradas nas padieiras ostentavam cruzes e à frente do ano: @ , que queria dizer, ano do senhor.

Posto isto vamos então falar da romaria do senhor dos Enfermos dos anos da minha meninice, que se realiza em Macieira, Fornelos, Cinfães. O pagamento de promessas era sobretudo no dia da festa. E aqui queria referir que neste dia lá vinha da região serrana um ou outro animal com o dono a conduzi-lo à soga fazer a romaria à volta do orago. Certamente assim foi prometido, ou por a vaca ter agarrado, leia-se, emprenhado, por ter tido um parto bom ou por ter recuperado bem de alguma mazela que a tivesse apoquentado. Este pagamento de promessas no dia da festa não era muito condizente com o pagamento de promessas de outros crentes, muitos de joelhos, até por uma questão higiénica, onde poderia haver aqui ou ali uma bosteira. Então pelos anos sessenta/setenta do século passado o padre da altura proibiu este ritual dos animais no dia da festa, sugerindo que devia ser feito ao longo do ano. Actualmente já não acontecem esses actos de fé com animais. Acresce aqui dizer que naquela altura o entrosamento entre os rurais e o gado vacum era de grande cumplicidade. Desde a ajuda nos trabalhos agrícolas, aos bezerros que eram comercializados e até algum leite para a criançada, era uma mais valia considerável.

O pagamento de promessas normalmente implicava deixar uma oferta monetária ao Senhor dos Enfermos. Tive conhecimento que na altura da guerra colonial as desobrigações eram mais substanciais, em virtude dos filhos ou maridos terem chegado sãos e salvos.

Na actualidade a festa ao Senhor dos Enfermos mantém no essencial o espírito religioso, se bem que diminuído pelo laicismo. No passado, o sermão quase sempre vozeado por um cónego de Resende, tarimbado nestas práticas, a meio da santa missa, era de grandes demagogias catastróficas que os altifalantes espalhavam por todo o arraial e arredores. Eram trovoadas que acagaçavam toda aquela gentinha humilde, fragilizada. Era o tempo do regime forte de Salazar a que se aliava também a Igreja que fazia por ter o rebanho dentro do redil, fora daí só havia o lobo mau a puxar os distraídos para o purgatório e inferno, dizia o pregador.

 

    (na imagem o sítio do arraial)

 

Ant.Gonç. (antonio)