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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - CLXXIV(Pelo Senhor dos Enfermos)

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Na região entre Douro e Paiva e mais além, quando se fala no Senhor dos Enfermos está subjacente a maior romaria do concelho de Cinfães que tem como auge o dia de Pentecostes. É sobre esta festividado do tempo do Salazarismo que vou a seguir focar aspectos daquela época, tendo presente aquela máxima de Salazar aos portugueses a quando da segunda guerra mundial “livro-vos da guerra mas não da fome”. Salazar deixou os cofres cheios mas o povo ficou mais pobre cultural e materialmente.

 


Dizem as estatísticas que há quase dois milhões de pobres no nosso país. Não sei quais são os pressupostos para se chegar a este tão elevado número numa população de cerca de dez milhões de habitantes. É bem provável que o conceito de pobre de hoje não terá nada a ver com a pobreza dos meus tempos de menino e moço.

Tenho de memória os verdadeiros pobres que andavam de terra em terra, esfarrapados, com uma sacola a pedir. Como na altura o dinheiro era escasso a maior parte das vezes recebiam uma quarta, ou menos, de milho, centeio, ou uma mão cheia de feijão, que depois trocavam num vendeiro por um naco de broa.

Na festa anual em Macieira, Fornelos, Cinfães – Senhor dos Enfermos – era ver uma imensidão de pedintes que se postavam no principal acesso à romaria, denominado na terra de Corredoura, actual Avenida profª Maria Mendonça (ver imagem). Esfarrapados, cegos, manetas, gente desiquilibrada, alguns com crianças descalças e ranhosas, sintomas de grandes carências. Um dos descamisados era o “meio quilo”, tinha sido um volframista nas minas de Arouca. Traído pela sorte, espatifou todo o vil metal em estroinices, chegou à estaca zero, andando nos finais da vida pelas romarias de mão estendida. Foi um caso que muito me impressionou pois tive conhecimento pessoal, ao saber todo o historial deste volframista de sucesso, mais tarde mendigo. Se a maior parte dos romeiros passavam indiferentes a estes desafortunados, havia também quem na sua fé de promessas ao senhor dos enfermos, esmolavam de fio a pavio todos estes infelizes da sorte.

O nome desta romaria, Senhor dos Enfermos, era apelativa, mas não só, para aí acorrer tão elevado número de desfavorecidos. Esta chaga miserável só se foi esmorecendo nos anos sessenta do século passado. Reformas, apoios sociais e nos tempos mais recentes RSI vieram de certo modo ajudar a colmatar essa pobreza na estaca zero.

 


Um dos nossos maiores escritores retrata esta pobreza na festividade da Senhora da Lapa no concelho de Sernancelhe, vejamos como o autor descreve em 1917:

“...Dali até o povo, em cada linha da rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigos, os surdo-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entrevadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das maõs ou as pernas engatinhadas, algumas secas como cabos de faca, e deitavam a lamúria:

- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!

Outros, no meio de mondongos, punham ao léu as chagas cancerosas, mais roxas que as de santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:

- Ó almas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!

Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:

- Pela luz dos vossos olhos dai uma esmolinha ao ceguinho!

E os entrevados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo menineiro, em caixas de petroline ou canastras de sardinha, ao lado de matulões barbaçudos, estendiam a mão, a guinchar:

- Oh! Tende dó, deixai uma esmola ao desgraçadinho!

Jesus! Um homem não tinha pernas nem traseiro, e, fixe sobre uma tábua, parecia enterrado de estaca. Mais além, um monstro, com a boca rasgada até às orelhas e sem nariz e sem dentes, era mais temível que a morte negra. E a fenda rubra gemia:

- Ó santinhos de Nosso Senhor, tende piedade! Dai cinco reisinhos! “…

 

(Aquilino Ribeiro in Terras do Demo).

 


Nota: Já tinha abordado no facebook este tema, agora condimentei-o com mais umas buchas.

 

 

  Ant-Gonç. (antonio)