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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - CLIX(Romarias no passado)

É sabido que a criação da segurança social foi uma instituição pedra fundamental da democracia. Podemos hoje gemer por este ou aquele motivo das coisas por vezes terem falhas. Eu costumo dizer que as pessoas se habituaram a ter tudo de mão beijada. Mas se recuarmos atrás dos anos sessenta, setenta do século passado, constatamos das nossas vivências a miséria social, sobretudo dos mais velhos, pobres e deficientes que se arrastavam sem reforma ou pensão social. Para trás mija a burra, dir-se-á, mas é bom lembrar isto.

Ao ler Aquilino Ribeiro, não me canso de referir este mestre da língua portuguesa, que retracta as gentes da Beira, chamou-me particular atenção o que escreve sobre uma romaria muito conhecida ainda hoje – Senhora da Lapa – no concelho de Sernancelhe. Pois era precisamente o que também acontecia na romaria da terra das minhas raízes – Senhor dos Enfermos, de que aqui já falei, em Macieira, Fornelos, Cinfães e eventualmente em todas as romarias. Vejamos então o que nos descreve o autor:

 

“… Tropicavam azeméis com velhos de capote e chapéu braguês para a nuca, e éguas de albarda com matronas de lenço de seda, peito coberto de oiro e tamanquinha de Viseu no bico do pé. Para aguentar o passo, outras mulheres tinham tirado as chinelas e com elas na mão, a par do sombreiro, ou à cabeça sobre o xaile, desunhavam-se todas tep, tep. E lá seguia tudo a catrapós, no frenesi de meter com sol à festa que o mês de Agosto c´os seus santos ao pescoço não tinha melhor que a Senhora da Lapa, a rica Senhora da Lapinha.

Dali até o povo, em cada linha da rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigos, os surdos-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entrevadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das mãos ou as pernas engatinhadas, algumas secas como cabos de faca, e deitavam a lamúria:

- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!

Outros, no meio de mondongos, punham ao léu as chagas cancerosas, mais roxas que as do santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:

- Ó almas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!

Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:

- Pela luz dos vossos olhos dai uma esmola ao ceguinho!

E os entravados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo menineiro, em caixas de petroline ou canastras de sardinha, ao lado de matulões barbaçudos, estendiam a mão, a guinchar:

- Oh! Tende dó, deixai uma esmola ao desgraçadinho!

Atrás deles, aqui e além, a dois tanganhos, a panela do badulaque fervia; e, no vapor, passava a olha do pespé rançoso, colhido em porta responsada a Sant`António.

- Por alminha de quem lá tendes, ó meus ricos senhores!

Aquele tinha o carão roído dum cancro e dava vómitos olhá-lo; uma mulher vergava a cabeça debaixo dum lobinho, nascido no pescoço, e tão grande era que parecia trazer às costas uma badana pelada. E a sua voz arremedava o ladrar dos cães:

- Ponde aqui os olhos, ó gente que passais! Por alma de vossos avós, dai a esmolinha!

Jesus! Um homem não tinha pernas nem traseiro, e, fixe sobre uma tábua, parecia enterrado de estaca. Mais além, um monstro, com a boca rasgada até às orelhas e sem nariz e sem dentes, era mais remível que a morte negra. E a fenda rubra gemia:

- Ó santinhos de Nosso Senhor, tende piedade! Dai cinco reisinhos!

- Seja pelo amor de Deus! – murmurou Glorinhas. – Há cada espelho pelo mundo!...

- Levam vida regalada – disse a Zabanda. – Não precisam de trabalhar.

- Deus do céu! Eu antes queria andar de rastos como a cobra!

Estrada fora, o corrilho de lázaros não despegava! E, entre as pernas das bestas e nas saias das mulheres, eram feros e agarradiços como carraças:

- Cinco reisinhos, oh! Dêem cinco reisinhos a quem o não pode ganhar! ...”

 

Em complemento do que atrás está explícito, quero também eu dar o meu testemunho das necessidades que grassavam nos anos da pobreza. Então a quando da missa de sétimo dia de algum graúdo ou remediado era oferecida uma esmola pelos familiares do falecido, no fim do ofício, aos pobres que acorriam piedosa e àvidamente para a receber.

 

  Ant. Gonç. (antonio)

 

 

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