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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Padres na feira

 Aquilino Ribeiro  retracta o meio rural, com o qual as minhas raízes também se identificam, pormenorizado em todas as vertentes. Em “GEOGRAFIA SENTIMENTAL” o autor espelha a feira quinzenal, ou dos quinze como dizia, de Lamas que pertence ao concelho de Sátão. Vejamos o que diz sobre o bulício feirante, abordando particular e subtilmente os pecadinhos gastronómicos e libidinosos da padralhada, termo que na vox populi poderá ter um sentido depreciativo, padrecos tem mais, mas que o autor noutras ocasiões empregava.

 

  "... Padres, esses, in magna quantitade, não só da freguesia como dos povos e concelhos limítrofes. Logo de manhã aparecia o abade, homem à roda dos seus quarenta e cinco anos, sempre bem-posto, cabeção roixo na qualidade de cónego honorário, labita, botas de montar, chapéu de borla. Nascera para o sacerdócio, o que não obstava a que se permitisse o luxo e bom gosto de possuir uma bela égua, um corpulento terra-nova, e uma linda ama. Não raro fazia-lhe companhia o cura, o padre Plácido, que orçava pela mesma idade, um gigantesco calmeirão benquisto a toda a gente. Por sua docilidade, ou por via da sua robustez, havia de ser sempre o oficiante as vezes que se tratasse de missa cantada, que deitava para bastante tarde, mormente quando a grande instrumental. Agora, faltariam todos à feira menos o padre Agostinho, boa presença, afável e bondoso, que gozava das simpatias gerais. Mas era um tumba colossal ao brídege, desdita esta de que fartamente se indemnizava nos braços roliços da Conceição, galante rapariga que em graças e encantos nada ficava a dever à Aninhas do Abade. Era também certo o padre Diogo, gorducho e bom gastrónomo, que se impunha pela fluência da palavra e da conduta. E tantos, tantos outros, eram fatais na feira dos quinze em Lamas. Se pelo fino trato, inteligência e cultura pouco vulgares, marcava entre eles o cónego Teixeira, da capela da Bemposta, Lapa, aos oitenta anos ainda não tinha conhecido qualquer dor, essas que afligem o comum dos mortais, dores de cabeça, ou de dentes. Como se explica? Pela sobriedade e serenidade do viver. A sua alma entesoirava mais pureza do que uma manhã de neve. Era infalível, apesar da idade avançada nas festividades da Semana Santa, de tão delicado perfume, onde quer que se celebrassem, e e parece-me estar a vê-lo e ouvi-lo naquela sua voz ainda clara e bem timbrada: In illo tempore dixit Jesus suis parabolam hanc…

O bispo de Viseu, D. António Alves Martins, queria, na sua diocese – Frei José pertencia à diocese de Lamego -, padres que amassem a Deus na pessoa do próximo e não padres que explorassem o próximo em nome de Deus. E a respeito do culto e suas práticas estimava que não houvesse exageros, antes a religião condimentasse a existência segundo um conceito seu que fez voga: «Como o sal na comida, nem muita , nem pouca.» Afora ligeiros pecadilhos, e como não se a governanta do cónego Teixeira, por exemplo, era mais apetitosa do que cerejas bicais colhidas de fresco, todos cumpriam à risca as prescrições de D. António.

Frequentavam todos a casa dos meus pais e só respeitos e atenções a casa lhes ficou devendo. Creio que todos dormem já o sono da eternidade, e é com saudade que evoco as suas memórias adoráveis.”

 

  Ant.Gonç.(antonio)

 

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