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Magistério6971

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"O malhadinhas"

Malhadinhas, almocreve que palmilhava terras da Beira desde a Costa Nova à raia, com epicentro em Barrelas (actual Vila Nova de Paiva), era um duro como era o seu macho ”de jarretes rijos como aço”, homem de escacha-pessegueiro quando alguém lhe fazia frente. Em Santa Eulália, “um varredor de feiras temível, arganaz dum homem – peito em aduela, cachaceira de boi, cara de poucos amigos – a ensarilhar a racha com tanta gana e fantasia que nem doido varrido a perseguir mosquitos à paulada.” Provocou Malhadinhas, levou que contar. O mesmo aconteceu “ao caceteiro Zé Piranga de Cinfães que vivia da vermelhinha e do que zarpava aos pacóvios”, não teve melhor sorte nem os marmanjos da sua corja.

 

“Que a minha língua era ponteira como a faca que trazia à cinta – murmuravam as bocas do mundo mal consideradas. A faquinha, assim Deus me salve, tinha uma função e não mais, cortar a côdea, o queijo, a febra do presunto, quando andava de jornada.

… Quanto à língua, cortaram-me a trave ao nascer; mas nunca levantei falsos testemunhos, nem acoimei de curta mulher honrada, nem de cornel sujeito que não tivesse testa para marrar.

…Eu lhes conto um passo assucedido, pelo qual, se o Pai do céu se não esqueceu de o apontar no livro da glória e a remissão é certa, do pecado mais taludo estou quite, ainda que me não morda nenhum de monta. Pois oiçam, meus fidalgos:

Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura.

Pegámos das cartas e o ladrão com a felícia toda, o sortalhão que dizem próprio daqueles a quem sobra o que falta às cabras mochas! Na cova da mão, sempre o cinco de oiros, a espadilha, o cinco de paus, levantou-me em catréfia seguida quatro quartilhos e um bolo. Paguei, mas bufei, que à mandinga da sua condição e não a jeito nem à sorte honesta atribuí eu, e comigo todos quantos ali estavam, aquele desaforo a ganhar.”

 

 

Quando Bisagra se apercebeu das bocas de Malhadinhas, enfurecido:

“ – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres.”

 

     In “O malhadinhas” de Aquilino Ribeiro

 

 

Ant.Gonç.(antonio)

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