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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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As pêgas na lenda de Santa Mafalda

 

A nossa Santa Rainha,

Não estava para brincadeiras,

Na vila excomungou as pêgas,

E no Burgo as laranjeiras.

 

A história tem fundamento,

Podem mesmo acreditar,

Quem passa na nossa Vila,

Não ouve uma pêga palrar.

 

 

 

 

No vale de Arouca, não havia, até há pouco tempo, pêgas, devido a um castigo da Rainha Santa Mafalda, segundo diz a lenda.

Soro Bringela era, pela idade, mais avó do que irmã no Real Mosteiro de Arouca e gostava de sentar-se junto da janela da sua cela que dava para a cerca. Para aí puxava a sua “costureira” e o banquinho rasteiro, pois que da janela vinha mais luz. Sempre que lhe permitiam os deveres e as horas canónicas, ali estava ela, pacatamente a costurar, a cismar, a fiar, a rezar e até a dormitar, cabeceando.

Numa tarde morna e tranquila, teve de ausentar-se por momentos, deixando sobre o peitoril da janela os óculos, a tesoura e um dedal de prata. Quando voltou a ocupar-se do seu trabalho deu fé que lhe faltava o dedal. Procurou por toda a parte, mas em parte nenhuma apareceu o seu dedal de prata.

Passados dias soror Mafalda, sentava-se sobre o baixo parapeito da janela da sua ala e, rezando, passava os seus dedos finos e brancos por um rosário de oiro, que lhe havia dado sua avó. Tangeu uma campainha e a Rainha Santa Mafalda acudiu presurosa à chamada, tendo poisado distraidamente o seu terço de oiro, sobre a borda da janela. Cedo se lembrou que o deixara na cela e voltou a esta, para a buscar, mas já não o encontrou.

“Caiu à cerca” pensou e bem Soror Mafalda. Chamou uma das suas servas e disse-lhe “olha vai lá baixo à cerca e debaixo desta janela deve estar o meu terço de oiro”.

A serva foi ao local, tendo reparado que, no céu azul, andavam muitas pêgas a grasnar com muito barulho e em voos desajeitados. A criada ao senti-las ainda resmungou “Bicharoco excomungada”. Procurou debaixo da janela, remexeu o chão, catou as ervas, mas o terço de soror Mafalda não apareceu. “Até parece obra do diabo” comentou arreganada a serva.

Foi uma surpresa e desgosto para todo o Mosteiro o desaparecimento inexplicável do rosário de ouro da Rainha Santa Mafalda. O terço levara o mesmo caminho que o dedal de soror Beringela.

A Rainha Santa Mafalda já estava disposta a fazer uma novena a N.ª S.ª da Silva, da sua grande e singular devoção, quando na portaria do Mosteiro a campainha começou a tocar forte. Apareceu um tal de Faustino da Borrida a entregar, pela roda, à irmã porteira o rosário de oiro de soror Mafalda. O pobre homem explicou que andava a cavar nos campos, olhara para o ar, no momento que passava uma pêga e que são linguareiras e ladras de coisas mal acauteladas. Ele vira que a pêga levava no bico uma coisa dependurada e que reluzia muito. Atirou-lhe com um torrão e gritara e esta amedrontou-se e deixou cair a tal coisa. O pobre homem logo viu que se tratava de um rosário de oiro e pondo-se  apensar concluir que este tinha sido roubado do Mosteiro.

Grande foi a alegria de soror Mafalda ao ver, nas suas finas e brancas mãos o rosário de oiro, de que tanto gostava. Beijou-o, benzeu-se e logo deu graças a Deus, à S.ª da Silva e aos Apóstolos Pedro e Paulo. Aproximou-se da sua janela e deparou com as pêgas que, desajeitadas e barulhentas fugiam em direcção ao arvoredo.

Não se conteve que não dissesse: ladras, suas ladras. Eu vos esconjuro, Saí-me da minha vista para sempre.

E assim aconteceu. Desde então nunca mais as pêgas e excomungadas, ladras e palradeiras, apareceram no vale de Arouca.

 

Retirado do livro Arouca – Comércio, Indústria e Turismo (1987-1988)

 

 

 

Com saudações esperançosas da Rosa

 

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