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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - XLIX (Moinho em vão)

Estávamos em Dezembro nos finais dos anos cinquenta, as noites estavam frias, a neve já tinha aparecido e pelas manhãs via-se o codão estaladiço nas couves-galegas do quintal. Era assim com naturalidade que se assistia ao rigor próprio do tempo, as alterações climáticas ainda não se faziam sentir.
Havia já alguns meses que o bacorinho tinha sido comprado desta vez não na feira mas a uma vizinha que tinha “botado” uma porca de raça. Agora depois de ter engordado com muitas baldadas de lavagem, tinha ido à faca, doze arrobas bem pesadas! Lá por casa na aldeia a rotina agrícola tinha então agora sido pontuada com a matança do porco, e com a desmancha  boa oportunidade para se encher a salgadeira e de ornar o saco da grande chaminé com o fumeiro.
O serão à luz da candeia foi predestinado para a feitura das chouriças, mouras, morcelas, salpicões e paios. Panelas, talhas e alguidares a postos com várias carnes em vinha d´alhos de lombo, pás, barrigas, caluba, rabada e os miúdos. A caseira veio ajudar, era trabalho de mulheres, a encher a tripalhada, que já tinha sido devidamente higienizada na levada no dia anterior, para que tudo ficasse pronto nessa noite. O meu trabalho era cortar os cordéis e ajudar a atar os enchidos. Estava-se a meio da tarefa e eis que minha mãe para, fica perplexa com um suspiro de preocupação e exclama: - Eh ó …(nome da caseira), esqueci-me de ir parar o moinho, a dorneira deve estar a ficar sem milho, e não pode ficar a moer em vão… Bem, alguém tem de ir lá. Ficava no ribeiro, que nesta altura de Inverno ia assanhado, a cerca de 15 minutos de caminho a passo lesto. Foi então a caseira que se predispôs a ir ao moinho puxar o pejadouro, e assim pôr a água fora do rodízio para que não ficasse toda a noite a gastar pedra, a mó tinha ainda sido picada há uns dias e os restantes consortes não veriam este descuido com agrado. Coube-me a mim acompanhá-la levando o lampião para cortar o escuro apesar de conhecermos bem o caminho.
Agora à distância vemos que o moinho da crónica está abandonado com toda a espécie de vegetação a abafá-lo bem como os outros que havia naquela linha de água. E o antigo caminho que lhe passa ao lado, que em documentos de há 150 anos era apelidado de estrada, (a actual estrada da minha terra que foi de macadame e agora é de alcatrão era ainda uma miragem) está intransitável. Tentei chegar ao moinho para registar uma imagem mas o silvado (ver imagem) não me permitiu apesar de ir munido de enxada e podão e muita força de vontade. O progresso do modernismo esqueceu estas memórias, ao menos sejamos nós aqui a perpetuá-las.
 

 

  Fiquem bem, antonio

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