Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

Pela ruralidade - XXIX (As pedras do meu lagar)

A cançonetista falava no futuro “nas tábuas do meu caixão”, eu vou falar no passado nas pedras do meu lagar. Temos o privilégio, se assim se pode dizer, de estarmos à beira da terceira idade (ficamos sem stress pois agora há a quarta idade) podemos dar-nos ao luxo de fazermos a ponte entre o antes e o agora. Se o “antes” esteve inalterado durante centenas de anos, o “agora” está em transformação constante. A estória que hoje vou relatar teve o seu epílogo há mais de 50 anos da qual tenho uma ténue ideia que foi agora reforçada por um meu conterrâneo que a viveu, à altura um moço na casa dos 16 anos, único testemunho vivo do acontecimento.
Portugal com Salazar nos comandos a gerir os destinos do país fazia sentir que a produtividade devia ser incrementada, fazendo tábua rasa da qualidade. As fronteiras estavam fechadas de modo que o país vivia do que produzia. O vinho dava de comer a um milhão de portugueses, segundo Salazar, era então protegido por lei, estando o mercado nacional fechado aos produtos vinícolas do estrangeiro. Na aldeia das minhas raízes, eminentemente rural, a produção do vinho estava na ordem do dia. Na casa de família existia já um lagar que a avaliar pela velhíssima vara de carvalho deve ter pelo menos duzentos anos. O meu pai, no entanto pensou em fazer outro junto ao que já existia. A “carreja” da pedra vinda da pedreira de S. Domingos que fica perto do lugar de Cortegaça, com destino ao lugar de Macieira na freguesia de Fornelos, concelho de Cinfães, foi feita por caminho travesso em quatro ou cinco carros (aqui a memória do meu informador não é tão assertiva), eram cerca de quinze pessoas desde os chamadores às sogas e atrás os tangedores de aguilhada para incitar os animais. Duas juntas de vacas para cada carro, uma à cabeçalha, outra a auxiliar.
À boa maneira de Helder Pacheco nas suas crónicas no JN sobre o Porto, vou também tratar pelo nome os intervenientes nesta coluna transportadora. O senhor Francisco ia à soga no carro da frente logo seguido do carro do senhor Eduardo do Rego, depois o carro do senhor Manuel do Rego e mais atrás o senhor Carlos do Rego (pelos nomes se apercebe que eram de famílias próximas). Os três primeiros carros levavam uma pedra cada um que faziam ranger as ferragens nas rodeiras do caminho e iam a suar as estopinhas quer os animais como os briosos lavradores. Tudo gente de indomável valentia, eis senão quando um imprevisto acontece. Num tope do manhoso caminho, numa subida, no sítio que por ironia se chama Chãos, parte o cambão da junta de vacas do Senhor Manuel da Rosalina, que ia a auxiliar o primeiro carro. As vacas que iam à cabeçalha, as do Sr. Francisco batidas nas "carrejas" e a lavrar sózinhas em terra presa, (leia-se sem chamador, só com o arador), a Cabana uma vaca grande possante mas marralhona e a Vermelha de gaitas reviradas, esquadrilhada mas tesa, não aguentaram o falseamento, começaram a recuar enquanto que o pessoal que ia atrás atiçou em forte alarido para que o gado aguentasse o esforço hercúleo. No entanto a enorme pedra resvalou no chadeiro para a traseira do carro e com o forte impacto deu origem a que partisse a cabeçalha e as chedas deram de si. Não houve mortos nem feridos por um triz segundo o relato do meu interlocutor pois o caminho era estreito, passava entre duas ravinas, sem hipótese de fugas. Alguma imprevidência agora à distância frisa o único ainda sobrevivente, Senhor José Maria, os carros iam muito juntos na subida, quando deviam ir suficientemente separados naquele troço íngreme do caminho.


Entendi deixar aqui este meu contributo para memória futura como agora se diz, se bem que não tivesse vivido a façanha da “carreja”, andava nos bancos da escola, no entanto todos os protagonistas foram do meu conhecimento.
 

 

(Na imagem, em primeiro plano a dorna feita de uma só pedra, à direita o lagar motivo desta crónica, e ao fundo o lagar secular e a avantajada e velhíssima vara de carvalho com o fuso e o peso. Tudo agora jaz em descanso eterno.)

 

 Fiquem bem, antonio

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.