Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

Pela ruralidade - XXVIII (Odores natalicios)

No dia anterior ao da consoada o meu pai e o caseiro tinham acertado que era preciso ir fazer uma roçada ao monte do sêrro. As vacas, os porcos, as ovelhas e os coelhos estavam nas cortes a precisar de camas secas, e o estrume tinha que estar pronto na época das lavouras. Manhã cedo o meu pai e o caseiro não tiveram palha na cama, sacholas da roça ao ombro, num taleigo um mastigo e uma pitada de bagaço bravo como coriscos, com a energia duma época agrícola que já não existe. O mato arnal, molar e gatanho, a carqueja, a urze, giestas, fetos e linho do cuco foi tudo cortado e juntado em pequenos montículos prontos para carregar. O carro iria mais tarde, ajudei a apor as vacas, tarefa que exige alguma prática, colocar as molhelhas e aperta-las à acha e à cabeça dos animais com as apeaças. Engatada a cabeçalha ao tamoeiro e aí devidamente presa com a chavelha feita de madeira dura de oliveira ou laranjeira o carro das vacas chegou ao monte perto do meio-dia com o filho do caseiro, de tamancos e polainitos de junco, calças com testeiras, à soga e eu atrás de chancas e coturnos de lã feitos lá na terra e na cabeça uma boina de orelhas a tanger o gado com uma aguilhada. Chegados ao monte há que carregar o mato com o forcado, trabalho que exigia uma certa perícia para ser bem distribuído e acamado para bom equilíbrio no chadeiro pois o caminho era bastante irregular. Tudo apostos e a caminhada vagarosamente lá se foi palmilhando. A chiadeira infernal que saía das cantadeiras que abraçavam fortemente o eixo de lodão apertadas pelos pescazes era motivo de orgulho para estes briosos lavradores eufóricos pela valente carrada. Chegados a casa já perto do lusco-fusco, descarrega-se o carro no quinteiro e já o fumo da lareira da cozinha saía por entre as telhas, algumas um pouco levantadas faziam de chaminé. Fui espreitar e que cheirinho!...
Na lareira toros de chamiça crepitavam encostados ao trasfogueiro, a minha mãe já estava a confeccionar nas panelas de três pernas, algumas já pernetas pelo uso, a aletria, as rabanadas, os formigos e a sopa seca!… A modernice do bolo-rei, passas e frutas cristalizadas lá ainda não chegavam. (Que diremos hoje com o consumismo instalado e com Pais Natais marrecos com o peso do saco das prendas!...)
Ainda hoje retenho esses odores natalícios/campestres!...


Fiquem bem, e escuso-me de enveredar pela trivial cassete de BF e Feliz Ano Novo, vou antes por aquele abraço amigo, mais substancial, interiorizando tudo de bom para os amigos e conhecidos e para todos os outros.
 

        (antonio)

1 comentário

Comentar post