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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - CLXXII(de Macieira, Cinfães à Espiunca, Arouca)

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Falar de memórias do povo do meio rural é registar acontecimentos que se vão esfumando no tempo. Estávamos no início dos anos sessenta do século passado, saco então agora do meu baú memorial o que a seguir passo a avivar.

O meu pai negociou com um vendeiro da terra, agora muito falada, devido ao passadiço do rio  Paiva – Espiunca, uma pipa de vinho com a condição de a transportar até à citada terra, 12 quilómetros por estrada em macadame à época. Foi então o caseiro que deu o corpo ao manifesto de tal tarefa (este eufemismo não passa disso mesmo, pois naquela altura o gosto pelo trabalho estava sempre presente). Como o trajecto era longo, às vacas tinham sido dadas, ainda a alva não despontava mas já a mejengra dava sinais de vida, um gigo bem cochado de ferrã do melhor almargeal que havia na terra, para estarem ao carro às sete horas. No dia anterior, com a ajuda de vizinhos, a pipa de 500 litros tinha sido encarrada com umas pranchas em cima do chadeiro, devidamente estabilizada nos malhais, corda do carro em volta e contra volta a apertar nos tornos.

Vacas fora da corte, como eram bandeiras a “ramalha” à direita e a “cabana” à esquerda, molhelhas entre a galhadura, canga em cima e tudo bem apertado com as apeaças. Apeiradas, chavelha a prender a cabeçalha ao tamoeiro, o caseiro baixote mas de braços de aço, à frente, uma mão na soga e outra na aguilhada, atrás a mulher, folgazona entre os trinta e os quarenta, mulheraça de olhos bugalhudos dava no olho, punha a cabeça à roda a libidinosos fandangueiros, e até os campónios mais sedentos ficavam a mastigar em seco, com uma racha e uma taleiga com alguma boroa e umas lascas de bacalhau foleiro. Era usual que o vendeiro ao receber a pipa , a coisa tinha sido falada de modo que não faltavam os habituais amigos de Baco ajudando também a encanteirar, provasse pelo espiche o verdasco e enchesse um canjirão para os transportadores que numa de boa convivência passavam em rodada, onde se chegava à frente o abade da terra, era ali um ferrinho, com as faces rosadas indicativas da sua propensão para entornar. Dizia-se que p´ra pinga era um pimpão, gostava de açapar no tintol trepador, apanhava às vezes uma rosca mas aguentava firme. P´ró mulherio era um melrinho de bico amarelo, não era nada ascético mas isso era contrabalançado pelo seu ar de bom-serás, convivente, desprendido dos bens terrenos, mãos largas, o que fazia ir aos arames a somítica governanta. No altar tinha uma pose clerical, dava os bons conselhos aos paroquianos mas interiormente dividia-se entre fazei o que eu digo e o que eu faço. Enquanto os homens metiam a pipa no canteiro, a mulher ficava à frente das vacas que recebiam duas faixas de palha de centeio que o vendeiro sacou da moreia que tinha ali no campo parede meia com a venda.

 Já o sol estava a pino, indicando o sul, quando começaram o regresso depois da missão cumprida.

O carro das vacas, é assim que se diz na região Douro sul e Paiva, que refiro atrás, é o da imagem; está aqui carreado com um casco, meia pipa de 250l, para memória futura; a que refiro no post era como atrás disse de 500l.

Desta estória verdadeira há ainda entre nós um dos intervenientes, já de provecta idade.

Era eu espigadote na altura dos factos pelo que retive toda esta odisseia que acabo de narrar.

 

Ant. Gonç.(antonio)