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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Vida rural de outrora, caseiros e senhorios

 

Será que em 1919 “as Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro se estenderiam para além das Beiras? Manuel de Lima Bastos na sua obra “Mestre Aquilino, a caça e uma gaita que assobia” diz citando o autor regionalista na obra citada, assume a evidente rusticidade, complementada pelo mais extremo primitivismo do modo de viver das suas gentes, dessa mesma ancestralidade existencial se tornou o paradigma fielmente revelador.

Voltando à interrogação inicial, penso que sim, pois a interioridade do país com mais ou menos intensidade fazia-se sentir em todos os quadrantes. Um país de gente pobre, mas que aceitava a miséria pacificamente. Vivia-se hermeticamente e só alguns iam além das fronteiras onde conheciam outras culturas e melhor nível de vida.

Vou dar aqui testemunho dum país de pobres submissos. Já por aqui falei no meu avô, que não conheci, não gosto de ser repetitivo, falo aqui nele para contextualizar o que a seguir exponho. Foi abanar a árvore das patacas para o Rio de Janeiro da “República dos Estados Unidos do Brasil”, comprou terras e tinha caseiros. Rebusquei umas velharias na papelada mofenta e cato uma declaração de 1929, onde o caseiro faz um compromisso, aceite pelo senhorio, com as seguintes condições para a feitoria de terras. (Naquela altura a palavra escrita ou com o aperto de mão faziam lei). Assim:

“1ª condição – que tudo o que produzir o chão, partiremos com o dito patrão a meias.                              

2ª condição – que todo o fruto do ar, será partido de terço, duas partes para o senhorio e uma para o dito caseiro.

3ª condição – que a semente de milho, será à custa do caseiro, assim como a de feijão, a de centeio e batatas, será metade à custa do senhorio e a outra metade à custa do caseiro.

4ª condição – que a cega e malhada do centeio, será à custa do dito caseiro.

5ª condição – que no ano em que sahirmos deixará todas as palhas e canas de qualquer espécie.

6ª condição – que no ano em que sahirmos só poderá fazer uma dúzia de colmo, meia para o patrão e a outra meia para o caseiro.

7ª condição – que todas as palhas de erva ou de centeio serão emoreiadas ou guardadas para onde o patrão mandar.

8ª condição – que o caseiro ficará com a obrigação de semear a erva nos prédios seguintes … … … …, como também terá de entregar ao dito patrão uma quarta de serradela. Todas estas sementes serão semeadas quando o patrão ordenar.

9ª condição – que o dito caseiro fica obrigado a cortar três carros de mato, de quatro dúzias cada carro para …. E mais dois carros de mato, um para … e outro para … (propriedades indicadas). Todo este mato será cortado e posto à porta, até ao dia primeiro de Agosto, do ano em que sair.

10ª condição – que o caseiro só poderá semear 2 alqueires de linhaça.

11ª condição – que o dito caseiro não poderá cortar lenha nenhuma cem autorização do seu patrão.

12ª condição – que qualquer serviço que o dito patrão precisar, como seja mato, lenha, lavoura das terras que o patrão fica fazendo, e caso não possa ir, o dito caseiro emprestará o gado ao senhorio.”

Nota: Quando um caseiro se mudava para outro senhorio era sempre pelo S. Miguel.

Acresce também dizer que havia empenhos para ir trabalhar as melhores terras. Lá ia o pretenso caseiro de chancas ferradas, calças domingueiras mas com testeiras, chapéu na mão, com sentimentos humildes mas convincentes a mendigar os melhores almargeais de fulano ou sicrano. (para que esta abordagem tivesse sucesso já teria chegado antecipadamente um chibinho abitolado com os galhos a despontar ou um anhoto desquitado, a casa do dono das pretendidas terras).

Nesta declaração fala-se na produtividade do “chão”, a meias. Nalgumas terras era também de um terço para o caseiro tal como o “ar”.

A quando da matança do porco, não era uma obrigação taxativa mas quase, o caseiro dava ao patrão um lombo do cevado e uns quilos de açúcar que variavam em quantidade conforme as terras, as de boa lavra davam mais, normalmente pelo Natal. Na Páscoa meia dúzia de frangos eram também ofertados ao patrão. O abade da freguesia também se chegava à frente de mão estendida, era agraciado com uns quilos de açúcar, além da côngrua, dos pobres agricultores.

  (antonio)