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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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A lascividade do padre Zé Noquinhas

Aquilino Ribeiro, tal como outros célebres escritores, não perdeu oportunidade para glosar com hilaridade a não castidade dos sectores clericais. A Igreja ainda hoje vai metendo a cabeça na areia, fazendo de conta. É certo que há algumas vozes de dentro que vão deitando a pedra no charco, mas até ver vão pregando no deserto.

“O Chico Brás não tornou a cuquear com a Zefinha do Alonso. Repeso e assustadiço, ia nutrindo a esperança de que os rebates da gravidez podiam ser flato ou endrómina passageira, e mesmo que Nosso Senhor, amerceando-se com a quebra de mancebia, fosse servido de sustar tão grave dano para os dois. E, todo prognóstico, cuidou de pôr os santos da sua banda, rezando-lhes, depois de ceia, uma boa enfiada de padre-nossos e não se esquecendo de ajudar todas as manhãs a missa do padre Zé. Aí estava este, que era um rascoeiro de gema, sem olhar a donzela, viúva ou casada, que para riba dos setenta andava rijo como um pêro, mimoso da divina graça. Ora, o corpo o pede… Deus consente.

O Neve-Ladroa, que fora moço de padeiro no Porto e corria feiras e romarias em chinelos de trança largando pelas tavernas suas loas de borracho e doutor da mula ruça, disse-lhe uma vez à boca do adro:

- Estás um santarrão, amigo Brás! Mas olha, toma tento com a patroa. O marranito ainda chinca… e para toda a casta de pássaras!

O marranito era o padre, das unhas do qual, muito franzino e tarraco, nenhuma moça saía, a dar crédito às vozes, sem subir ao calvário.

O Brás, beliscado em sua honra, cresceu para ele; mas seguraram-no.

- Eu dou-te a chincadela, pedaço de bêbado! – espumava ele.

   …

… O padre Zé Noquinhas era um ronceirão e, a ler o missal, parecia mesmo uma velha a rilhar castanhas. Veio substituí-lo, fazia para o S. João um ano, o padre Francisco Gaudêncio, a rogo dos graúdos da terra, que deitaram a Lamego, serra da Nave fora, a falar ao bispo. O bispo queria despachar para ali um padrinho novo, desses de coroa não maior que um vintém, mais maraus que um raposo. Ná, para trabalhar as moças havia ferramenta na terra. Convinha-lhes o padre Francisco porque era homem de peso, tinha ali parentes e, pastoreando já em Peva, havia de ser mais maneiro que pároco encomendado na cobrança de alcavalas e pé de altar. Neste ponto, porém, lhes saiu o cálculo goro; o padre Francisco não desperdiçava uma migalha, que os dois filhos, estudantes, eram um sorvedoiro sem fundo. Aldemenos não era tanateiro nem beato, tendo sempre agrados para o rico e para o pobre, e lesto nas obrigações como ele não havia na diocese. Era ver aquele domingo da Ressurreição em que, com dois secula seculorum, mais dois amen dico vobis, a missa estava no papo…”

 

    (In "Terras do Demo" de Aquilino Ribeiro)

 

Ant. Gonç. (antonio)