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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Olhar o Porto - CL(O puto desceu à cidade)

Era eu ganapo a modos que entre o chavalinho e chavalo, fato domingueiro a condizer com os sapatos feitos pelo sapateiro da terra, deixei atrás da porta as chancas e despedi-me também das vacas, láparos, galinhas perdezes bem como do cantador francês que à meia noite era um ferrinho, um regalo sonante mas que alertava a ladina raposa do sítio da capoeira. Do tareco, não, pois o filho dum gaio já há dois dias que não aparecia, tinha ido de certeza à gatice e depois quando chegasse, como aconteceu no ano passado, vinha um magricelas feito num oito.

Meti-me na carreira do Escamarão, arrotei vinte mil reis Cinfães – Porto, pelo bilhete que o Sr. Sebastião, carismático cobrador (já aqui num post falei nele) me cobrou que a mim e aos meus progenitores  custaram os olhos da cara. Vir à cidade não era para qualquer um, havia sempre aquela vaidade de presenciar a faladura “à moda do Porto” e ver os engravatados de pasta na mão. Lá na terra a linguagem era de sotaque beirão mas tinha a mais valia de ser mais comunicativa até com os animais.

O Escamarão à segunda feira chegava à cidade por volta das 07H30 da manhã, passava pela que ainda era serra virgem de Valongo e por Rio Tinto e Venda Nova já era um corrupio de bandadas de gente que iam para o trabalho. Às oito menos cinco ouviam-se as primeiras sirenes das fábricas para avisar os operários que a hora estava a chegar. E então às oito em ponto novo apito para se começar o trabalho fabril. Algumas como a da imagem tinham relógio na frontaria. As altíssimas chaminés de tijolo burro eram sinais de uma cidade em frenesim.

Quando a hora do refeição estava a chegar, carreirinhas de mulheres atravessavam a ponte Luís I, vindas de Gaia com açafates e condessas à cabeça equilibrados na rodilha, com o almoço e o almeiro para os familiares que trabalhavam no Porto. Das minhas memórias ainda há estas cenas!...

À noite, pelo menos uma vez o puto foi até à Praça a aí ficou deslumbrado. Estava no “ÉDEN” ao ver os néons, a máquina de costura a trabalhar por cima do palácio das Cardosas e do outro lado  no telhado do edifício da cervejaria Sá Reis a capa preta do homem da Sandeman a subir e a descer. Tinham dito lá na terra que quando se fosse à cidade devia-se usar de alguma contenção na postura, não ficar basbaque.  Os tripeiros gostavam de chacotear aqueles que vinham lá de "chima" com ar sarcástico “ó patego olha o balão”. Mas a apetência admirativa era mais forte! Por largo tempo o puto pacoviano esqueceu àquela hora os caminhos da terra, escuros como breu, apenas sinalizados por um ou outro arincu, luz eléctrica ainda não tinha chegado.

Esta era uma cidade do Porto, outra havia, a das ruelas das colinas de Pena Ventosa e da Vitória, onde luzes públicas mortiças escondiam a porcaria e a degradação daquelas zonas históricas mas pobres. Actualmente os néons acabaram na cidade nova, na outra a da cividade a limpeza das ruas está mais aceitável mas a desertificação é assustadora.

 

 

    Ant.Gonç.(antonio)