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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - XCIII (O puto que foi estudar p´ra padre)

No meu tempo de menino estudar era um luxo caro e a oferta ensinadora também era escassa. Como tinha dois familiares afastados que eram padres surgiu a ideia nos meus progenitores de me despacharem para o seminário de Vila Viçosa onde esses tais parentes eram prefeitos. O puto que tinha acabado a primária, sabia na ponta da língua as linhas do caminho de ferro, ramais, estações e apeadeiros que tinha de utilizar até chegar a Vila Viçosa.

Logo de madrugada o meu pai levou-me a pé, claro, até uma próxima localidade onde apanhei às 03H45 uma carreira do “Soares” que chegava ao Porto a tempo de apanhar o comboio-correio, que saía às 07H00 de S. Bento com destino a Lisboa. A viagem foi pois na linha do Norte, mudei no Entroncamento e aí continuei agora na linha do Leste. Em Torre das Vargens mudei mais uma vez de linha e continuei até Vila Viçosa. Comboios movimentados a locomotivas a carvão, bancos de madeira e viva o velho, neste caso, puto. Acresce aqui dizer que na altura havia 1ª, 2ª e 3ª classes, eu ia nesta última. A filosofia de Salazar estava aí patente com as classes dos ricos, remediados e pobres.

No dia anterior tinha sido despachada para o destino uma caixa, eufemísticamente podemos chamar-lhe arca, que não tinha a funcionalidade da mala de cartão de Linda de Susa. O meu pai tinha-a  mandado fazer para o efeito a um carpinteiro mexeruca, ainda a guardo faz parte das minhas velharias. Aí ia o enxoval do ganapo, tudo identificado com o número vinte, roupa da cama incluída, pois naquela altura para os internatos, era levada pelos (as) jovens que se iam internar.

Bem, aquela clausura do seminário com as lavagens ao cérebro, sempre a alertarem para os perigos do mundo e as virtualidades do sacerdócio celibatário, eh!, eh!...,  não era assunto que estaria no subconsciente do jovem seminarista e então ao fim do terceiro ano abriu-se a gaiola e o pássaro voou com novo rumo. Aqui revejo-me ao espelho no filme “Manhã submersa” baseado na obra de Virgílio Ferreira.

Agora à distância desculpo quem teve a ideia genial de me querer enfiar a batina eclesiástica. Ou seria só vontade de dar ao filho um “curriculum” de saberes sem grandes custos?

 

 

    Fiquem bem, (antonio)