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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - XC (Nos anos sessenta, o Escamarão)

Das minhas memórias viajar nos anos sessenta nas carreiras do Escamarão era uma odisseia que agora à distância nos faz gargalhar.

Na parte de cima das camionetas, a grade como se dizia, levava toda a espécie de mercadorias mesmo as mais volumosas. Desde pasteleiras, leia-se pedaleiras ou se preferirem à modernaça, biclas, caixotes de fruta, cestos de galináceos (tudo bicos caseiros, nada de aviários) e até apetrechos para a agricultura – um pesado semeador fiz eu seguir no Escamarão de C. Paiva para a minha terra. Baús, condessas, garrafões à brava e caixas de média dimensão também eram transportadas, eu próprio quando fui para o seminário levei as trouxas numa que uns dias antes um carpinteiro manhoso fez. Na altura na cidade, nos terminais das carreiras havia carrejões (as) que levavam à cabeça ou às costas para as gares ou outros locais, as mercadorias. Quanto ao transporte de mercadorias estamos falados. E os passageiros?

Ir à cidade no Escamarão era uma prosápia para os rurais que passavam a vida na agricultura a tratar dos campos e dos animais. Preparavam-se com antecedência e amanhavam-se para a viagem, uma garrafinha de bagaço metida no bolso de dentro do casaco e a patroa afiambrada com um lenço de merino à cabeça, numa saca de remendos de várias cores levava um almeiro onde sobressaía um bom naco de broa. A meio da viagem era um ver se te avias, ele mandava abaixo umas goladas da cachaça da garrafa branca e ela não fazia cerimónia ao escorripichá-la.  Entre as pernas do casal lá ia também um garoto de bom morangueiro para o filho que trabalhava nos carros eléctricos como diziam (não se entendiam a dizer STCP), na grade seguia uma condessa com uma broa, tinham metido ao forno na véspera, chouriças, um paio e uma garrafa de azeite da última colheita. O rapaz ia adorar estas recordações da terra que o viu nascer. Nas carreiras, os menos habituados nestas andanças ficavam tontos com as curvas e contra curvas, abeiravam-se das janelas que eram de guilhotina e às tantas chamavam o “Gregório”. E a imagem de marca ficava na lateral da camioneta (alguns diziam caminheta), que seria lavada ou não no fim da viagem.

E o cobrador? Era o Sr. Sebastião, mais conhecido que sei lá o quê, calça e jaqueta de cotim cinzento, saca  de cabedal ensebada pelo uso, a tiracolo, bigodinho à maneira, era a pessoa de confiança da empresa. Conhecia todos os fregueses bem como todas as curvas da estrada. Quando se falava na carreira do Escamarão inevitavelmente se associava ao Sr. Sebastião (já por aqui falei nele noutra crónica). Se da vila de Cinfães para o Porto (uma nota de vinte era o custo da viagem)  o autocarro era aceitável, já da minha terra era uma Chevrolet ou uma Diamong de frente afocinhada (esta tinha a particularidade de ter a cozinha isolada da parte da frente). E viva o luxo, pois lá na terra o pessoal só estava habituado a ver carros de vacas (de bois se preferirem).

 

 

   Fiquem bem, antonio