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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Histórias da guerra - XVII (Fim) O estrelejar dos foguetes

O grande paquete Vera Cruz era um dos transportadores das tropas que faziam comissão militar em Angola. Tinha sido adaptado para esse fim a quando da guerra colonial. Outros havia como o Niassa, Uije ou o Príncipe Perfeito, mas aquele era o maior. Tinha chegado a Lisboa após uma viagem de 11 dias desde Luanda, o pessoal estava já fora do teatro de operações, vinha eufórico, e agora ia de comboio até ao aquartelamento de Abrantes, unidade mobilizadora e aí sim passaria à peluda. Batalhão formado na parada e os elogios da praxe feitos pelo comandante que na fase discursiva não esqueceu o dever cumprido dos seus subordinados com um minuto de silêncio pelos mortos em combate.

Lá mais para o norte numa aldeia de Cinfães, estávamos nos finais de Junho, os campos estavam com o milho enraizado, tinha sido bem empegado, a criar pendão. As parreiras anunciavam boa produção, a nascença tinha sido farta se bem que o maldito míldio tivesse feito alguns estragos. Os lameiros com a água de lima estavam verdejantes e a cada passo davam uma cortadela, à foucinha, para as vacas de raça arouquesa. O ribeiro ia gordo para a época ainda mantinha a sonoridade cantante acentuada pelo desnível, e o moinho de consortes trabalhava noite e dia. O desgaste da mó era evidente, de vez em quando tinha de ser picada, uma arte que não era para qualquer um. Na bordadura da várzea, dissimulado no corucho dos carvalhos, o pardacento cuco, espavorido e manhoso, dava os seus últimos acordes seguidos de estribilhos desafiantes para algum parceiro, cú, cú; cú, cú; arrombo-te o cú, arrombo-te o cú…  Já tinha posto ovo no ninho do chasco e agora preparava-se para terminar a sua curta estadia entre nós, regressaria novamente para as terras africanas.

Era neste cenário campestre que o regozijo pela chegada do filho da guerra, são e salvo, foi assinalado pelos meus familiares directos. E a melhor maneira, segundo a vontade de meu pai, foi fazer estoirar uma dúzia de foguetes!... Era também assim que as pessoas manifestavam as suas alegrias como neste caso concreto, mas também quando chegava um torna viagem do Brasil. Aqui era o próprio que assumia a exteriorização que no caso de a vida lhe ter corrido de feição lá pelo Rio seria uma dúzia, duas ou mais de bom fogo. E toda a freguesia ficava a saber da chegada de fulano e com fortuna!...

 

 

Fiquem bem, antonio