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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Pela ruralidade - XLV (A miragem da cidade)

Nos anos sessenta o mundo rural via como uma miragem a “civilização” citadina. Uma ou outra filha da terra que tinha ido para a cidade onde fazia o tirocínio de “sopeira”, regressava com um ar de recacho, a falar à moda do Porto.
Esta cidade era, dizia-se, a terra das luzinhas, dos “bonitos”, dos engravatados, que nada tinha a ver com a escuridão rural noctívaga apenas furada pela iluminação das candeias a petróleo quais arincus em noites de canícula, os lavradores com calças remendadas com quadras e testeiras, camisa de linho mais de estopa, tamancos e coturnos de lã, e a falar num sotaque rude, lá pelos caminhos enlameados das aldeias.
Na minha terrinha alguém que ia ao Porto enchia-se de vaidade e era visto pelos demais com um misto de admiração e inveja pois sair daquela pasmaceira rural não era para qualquer um. E então os torna viagens que se gabavam de ter mijado no mar, vinham lá do Rio com uma prosápia, esses eram os maiores!...
Mas se a cidade era vista como um eldorado tinha também cambiantes de indiferença com gente que passa apressada sem um boa tarde ou bom dia como é hábito no meio rural. O meu pai das poucas vezes que vinha à cidade achava isso estranho e não se conformava com a indiferença humana que na óptica dele era animalesca. E à distância convenhamos que a visão dele tinha algo de assertividade pois ainda hoje pessoas que vivem no mesmo prédio quase não se conhecem e quando muito fazem um cumprimento forçado no inevitável encontro do elevador. O anonimato das cidades contrasta com o entrecruzado conhecimento do meio rural.
 

  Fiquem bem, antonio