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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Escola em risco - III

O braço de ferro entre ministra da Educação e professores sobre a avaliação destes mexe com a razão de ser de todos – a aprendizagem dos alunos, o que é mau num país já de si muito fragilizado na educação e não bastam as estatísticas do ministério querer tapar o sol com uma peneira dizendo que no último ano houve uma melhoria acentuada. A fasquia é menos exigente e isso não interessa nada para elevar o nível das aptidões.
Andei a vasculhar papelada antiga que tinha aqui amontoada e aparece-me uma folha do “Público” de 18 de Outubro de 1995 com um editorial de José Manuel Fernandes com o título “Espelho meu, diz-me…” que passo a transcrever:
“ATERRADOR. Não há outra forma de definir o relatório que hoje será discutido no Conselho Nacional de Educação.
Aterrador pelo que revela acerca de ignorância profunda, de ausência de aptidões mínimas, de incapacidade de viver numa sociedade moderna. Mas aterrador também pelo que desvela acerca da grande mentira que é o sistema escolar português.
Para passar nos testes que serviram de base ao inquérito sobre literacia não se exigia mais do que saber ler um anúncio de uma câmara, perceber o conteúdo de um artigo num jornal, preencher um talão bancário, fazer o troco numa mercearia ou, complexidade das complexidades, avaliar o peso dos juros num empréstimo bancário. Não havia perguntas de ciência, nem de literatura, nem de gramática.
Os resultados obtidos foram tão maus que teve de ser criado um escalão zero, um escalão de indigência absoluta. Pior: os resultados constituem um violento soco no estômago.
Primeiro, pelo que revelam acerca da inaptidão competitiva de Portugal. Um povo que mal sabe ler um horário dos comboios e falha quando se lhe pede para realizar o mais simples dos cálculos matemáticos não está preparado para os desafios da sociedade moderna. Custa dizê-lo, mas é verdade. Com este tipo de analfabetismo funcional tão profundamente enraizado, como se pode exigir flexibilidade no mundo do trabalho, capacidade para reagir às novas tecnologias, para responder com eficácia aos desafios da modernidade?
É certo que as gerações mais novas não estão tão mal como as gerações mais velhas. É certo que conforme vamos evoluindo dos menos instruídos para os mais instruídos e subindo a escala das classes sociais o panorama deixa de ser tão negro. Mas é fraquíssima consolação, tanto mais que cerca de metade dos licenciados não consegue situar-se no nível mais alto, o 4, um nível de exigências medianas que um razoável aluno do 2º ciclo do básico teria obrigação de alcançar. Pior: quando verificamos que apenas 10 por cento dos empresários e dirigentes alcança o nível 4, interrogamo-nos sobre a capacidade dos que deveriam ser os mais capazes.
O segundo aspecto gerador de profundas preocupações é o que este estudo põe a nu a propósito da falência do nosso sistema de ensino.
É certo que a herança é pesadíssima. A geração dos nossos pais e avós, educada sob o salazarismo, é quase totalmente iliterada, é entre os mais velhos que os resultados são mais aflitivos, sinal evidente de que há mesmo uma “pesada herança de meio século de obscurantismo.
Mas mesmo quando começamos a estudar os números referentes às gerações que já cresceram depois de reforma Veiga Simão, os dados que encontramos estão longe de ser interessantes. São apenas menos maus, o que revela que, se houve ao longo dos últimos 25 anos, uma progressiva generalização do ensino, a sua qualidade situa-se no domínio da indigência.
Repare-se no que se passa no grupo etário dos que têm menos de 25 anos, um grupo que inclui os que terminaram os seus estudos nos últimos dez anos, num período de alargamento da escolaridade obrigatória de seis para nove anos. Nesse grupo, o menos mau a nível de literacia, inserem-se no nível 4 apenas pouco mais de 10 por cento dos interrogados, taxa que contrasta com 62 por cento para o total dos canadianos e 20 por cento para os americanos.
Isto é, as gerações formadas já depois do 25 de Abril estão um pouco melhor, mas ainda estão terrivelmente mal. Em termos comparativos, continuam muito atrás, no que toca à capacidade de ler e calcular, dos outros povos ocidentais, com quem temos de viver, cujos mercados temos de disputar, neste mundo onde todos somos obrigados a competir.
Recentemente, uma amiga professora do secundário dizia-me que na sua escola, “os intelectuais” eram os que liam “A Bola” ou o “Record”, porque os outros nem isso. Agora compreendo melhor o Portugal real a que essa minha amiga se referia. Este relatório é um espelho desse país, e é impossível gostarmos da imagem que nele se reflecte.
Esta imagem, esta “pesada herança”, exige muito mais, para ser combatida, do que uma aposta na educação. Não se deu por isso, ou talvez já tenha sido esquecido, mas nos dez anos de cavaquismo o investimento neste sector aumentou 1 por cento do PIB. Para a próxima legislatura promete-se outro salto igual, outro ponto percentual do PIB. Mas o risco que corremos é de ver esvair-se esse dinheiro, esse esforço de todo o país, como areia por entre os dedos das mãos, se não houver, em simultâneo, uma alteração de atitudes e de cultura.
Nas universidades norte-americanas, os estudantes de origem asiática têm de ser discriminados negativamente, senão tomavam todos os lugares disponíveis. Não obstante, estão largamente sobrerepresentados em todas as instâncias do saber. Isso não sucede porque esses estudantes sejam mais ricos ou frequentem escolas melhores do que os seus colegas de cultura anglo-saxónica ou hispânica; isso sucede porque esses estudantes crescem em ambientes familiares e comunitários que, há mais de dois mil anos, desenvolveram a convicção que saber mais é uma chave da ascensão social e do progresso. Nesses meios os melhores alunos, os mais cultos, têm mais prestígio que os melhores atletas, os mais bonitos ou os mais ricos.
Esta filiação histórica e cultural encontra-se nos antípodas da nossa e não é para ser copiada. Isso não impede que olhemos para essas experiências e percebamos que não devemos ficar apenas à espera que o próximo Governo cumpra a sua “paixão” e que o país, tocado por tal varinha mágica, recupere o seu entranhado atraso. Temos igualmente de olhar para o que se passa nas famílias, para o que se passa nos meios de informação, temos igualmente de continuar a revoltarmo-nos contra os que insistem em “dar ao povo o que povo quer” em nome de audiências e lucros.
É que as responsabilidades sociais por este estado de coisas não se esgotam nem se resolvem no ministério da 5 de Outubro.”

 

   Fiquem bem, antonio