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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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Olhar o Porto - XXXIX

 

A cidade está numa transformação constante. O casario, as ruas, as pessoas, os costumes vão sendo moldados por exigência do correr do tempo.
Hoje é impensável ver manadas de gado vacum ou uma carneirada a atravessar a ponte Luís I, como carros de bois às centenas a carrear pelas ruas da cidade. Se  nos pode parecer bucólico ou uma treta para os mais novos a verdade é que tudo isto não vai assim há tanto tempo. Ainda há por aí gente madura que pode testemunhar. Mas se ainda recuarmos no tempo cerca de 200 anos nem sequer dá para imaginar o  lavrador de calças de cotim já cansadas, com dianteiras e quadras, descalço a empegar o milho do restivo no Campo das Hortas (actual Praça da Liberdade)  com uma poçada vinda em rego de terra batida através do Laranjal, dos mananciais da Fontinha. Em cada talhadoiro o empenhado lavrador regava uma torna. Eram terras do Bispo, que tinha tanto de prepotência como de agiotice sempre pronto a verrumar no pobre caseiro. Ficavam fora da grande cêrca, leia-se muralha Fernandina, do lado norte. A mulher, essa estava no alpendre da casa a preparar uma réstia de cebolas enquanto um dos filhos, já espigadote mas ainda criançola, a guardar as vacas no pasto com grande afinco pois a "cabana" andava muito irritadiça, só queria ir para o lameiro do vizinho, "andava ao boi"!...A filha mais velha, uma mocetona fresca e bem roliça com faces rosáceas tisnadas pelo sol campestre, barriga da perna bem torneada, olhar felino, fazia furor aos moços da Quinta do Laranjal que chegavam não a vias de facto mas quase, em azedas disputas junto à fonte da Natividade quando a moçoila lá ia buscar um caneco  de água.  A mãe  tinha-a mandado pela vizinhança rogar para a tascada que ia ser feita à noite, no quinteiro, à luz do lampião. O mais pequenito, um fedelho ainda de meses, estava ali à vista da mãe, dentro de um gigo, qual parque infantil dos tempos de hoje, tinha pendurada ao pescoço por um baraço uma mamona nauseabunda feita de estopa, a lamber a ranheta que lhe escorria do nariz perante a indiferença da progenitora mais preocupada a encabar as cebolas para assim terem melhor venda. A um canto, junto à sebe da chiola, o podengo magricelas estava ali deitado em "ninho de cão" com a barriga a dar horas à espera de um osso que nunca mais chega!...


A minha sogra, cuja provecta idade já por aqui referi, foi protagonista da história verídica que passo a descrever. Trabalhava na agricultura perto da Praça da Corujeira. Na altura o Mercado do Bolhão era abastecido pelo que se produzia nas quintas dos arrabaldes. Então ia a minha sogra para o Bolhão, pela Rua de Bonjoia, com um molho de hortículas à cabeça equilibrado numa rodilha e como lhe dava melhor andamento ia descalça. Aparece um polícia:
- Então a senhora não sabe que não pode andar na rua descalça, sabe que dá multa?
- Ó senhor guarda eu lá em casa ando calçada mas agora dá-me mais jeito ir descalça.
- Pois, mas deve ser ao contrário, na rua deve ir calçada, para a próxima terei de lhe aplicar a multa (5#00).

PS: Acresce dizer que o Governo Civil do Porto, em 1957, entrando em vigor no dia 1 de Janeiro de 1958, emitiu um regulamento que dizia no artigo 1º: É proibido nas cidades e vilas, nas estâncias termais e nas sedes das zonas e regiões de turismo deste distrito o trânsito de pessoas descalças na via pública.

 

   Fiquem bem com mais este meu contributo citadino, antonio