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Magistério6971

Os autores deste jornal virtual apresentam a todos os visitantes os seus mais cordiais cumprimentos. Será bem-vindo quem vier por bem.

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O PROGRESSO!...

No meu tempo de petiz, já na minha aldeia que não está no mapa, havia estrada cujo piso era em macadame. Então quando se ouvia ao longe zoar um carro, era certo que seria do senhor doutor, do senhor abade (na minha terra era esta a designação do cura) ou do senhor Cunha que tinha chegado recentemente do Brasil.

Mais tarde, no ano de 1966, andava na tropa e o meu pai escreveu-me para Tavira a dizer-me com euforia, que tinha havido na terra um jogo de futebol tendo juntado 15 carros!

Bem, depois deste meu apontamento retrospectivo quero aqui deixar uma "caixa" do Jornal de Notícias de antanho, na 1ª página, cujo título é:

""Já não há ruas para passear"

Nos meus tempos de menino, quando se pediam informações de alguém, que não fosse positivamente alguém, respondiam com estas preciosas e pitorescas palavras:

- Se tem alguma coisa?... Tem as ruas livres para passear!

Bons tempos!Hoje já ninguém se expressa assim, com eufemismos engraçados. A fala do povo como a das senhoras "elegantes" baseia-se num calão mestiço de desporto terrestre e oceânico, ignora os sãos dictérios dos nossos avós. Mas que assim não fosse, a expressão "tem as ruas livres para passear" não se empregaria mais porque deixou de ser verdadeira. Já não há ruas livres para passear. Os peões, coitados contentar-se-iam em ter ruas livres para transitar. Nem isso.

O peão existe; o transeunte morreu. Por muito favor deixaram-lhe uns trilhos brancos, por onde o desprotegido da sorte terá de atravessar quando o sinaleiro lhe der licença. Não é sempre. Se tentar infringir as vaias vai para a esquadra se não fôr para o necrotério.

A rua não é para gente que ande a pé. A rua é para os caminhões de carga, e para os automóveis e para os democráticos "taxis". Atravessar qualquer rua é arriscar a vida, tal  a velocidade de torpêdo com que os taxímetros circulam dentro da cidade de Lisboa. Mesmo nos passeios não se tem a vida garantida, porque se não nos chegarmos bem para a parede corre-se o risco de um projectil desses nos arpoar e dar cabo de nós. Sucedeu há anos na rua do Arsenal, onde encontrou a morte um homem estimável que saía de tomar passagem numa companhia de navegação, para viagem de recreio ao norte da Europa.

E mesmo arrumado contra as paredes se dê por inteiramente ao abrigo das agressões automobilisticas. Em plena Rua do Ouro, um automóvel dos correios, que se dirigia à estação do Rossio, esmagou contra a parede do Montepio uma pobre senhora que ficou feita num bolo.

Esse furor da velocidade consentido pela polícia, a despeito de todas as posturas, torna igualmente perigoso utilizar um "taxi". A minha ocupadíssima vida obriga-me a constantes corridas de automóvel. É uma canseira o indispensável aviso:

- Vá devagar! Tenha cuidado com essa travessia!...

- "Quem vem de lá é que tem obrigação de avisar".

Não há maneira de meter na cabeça desses motoristas de "taxis" que o não cumprimento das obrigações do colega é uma ameaça de morte para este, e que todo o homem que deita a mão ao volante de um carro obriga-se a ter cuidado por si e pelos outros.

........ Mas, enfim, eu não pretendo queixar-me da bravura de que precisamos ser dotados para andar de "taxi", para transitar a pé por Lisboa, nem queixar-me dos "engarrafamentos" contínuos na Baixa e até na Alta."

..........

autor do texto: Joaquim Leitão

ano: 1941

preço de capa do JN: 40 centavos

Agora não me digam que este arruado não merece um comentário, antonio